O inimigo invisivel

 

   Estamos malucos? Com todo o tempo que passamos a treinar Defesa Pessoal, tenho a certeza de que muitos dos nossos familiares a nossos amigos gritariam ‘SIM’, e não os censuro. De que outro modo se poderia qualificar alguém, que , constantemente pensa em técnicas como directos, Low Kicks, joelhos, chaves, desequilíbrios, projecções, luxações, cotovelos, etc…, quando para a maioria de nós as possibilidades de sermos atacados são poucas!!!

 

Devemos então estar malucos para dedicarmos tanto esforço em algo que só nos compensará, se algum dia nos depararmos com uma situação em que a nossa vida é posta em risco. De certo assim deveria ser, se fosse esse o único beneficio que nos proporcionasse o nosso treino.

 

Penso que o principal beneficio do treino de Defesa Pessoal é que pegamos nos conceitos, nas tácticas e a disciplina que adquirimos com a nossa prática e aplicamo-los ás batalhas que acontecem no nosso interior. Quero eu dizer com isto que deste modo, podemos utilizar o nosso treino diário para melhorar a nossa própria vida e a vida daqueles que nos rodeiam.

 

Uma das chaves que podemos utilizar para melhorar a nossa vida é desenvolver a autodisciplina. Esta é uma batalha que devemos enfrentar todos os dias da nossa vida. Poderá tratar-se de alguma coisa sem importância , como o simples facto de deitar fora ou não o lixo ou não.

 

Poderá ser alguma coisa mais transcendente, como no caso de decidir-mos  se devemos comprar um carro que esteja na moda ou investir o dinheiro em algo mais benéfico. A batalha da autodisciplina resume-se numa simples escolha: faço o que me apetece no momento ou faço aquilo que para mim e para os meus seja melhor a longo prazo?

 

Se utilizarmos o treino de Defesa Pessoal como uma espécie de guia ou método, podemos tomar as decisões correctas e ganhar as batalhas no nosso interior, contra o poderoso inimigo invisível.

 

Imaginem que estão a fazer sparring contra um adversário de maior envergadura, mais forte e melhor dotado tecnicamente, (muitas vezes parece que a vida é assim mesmo!). Está a lançar-nos constantes combinações de técnicas, sem nos dar praticamente qualquer hipótese. Tentamos então manter uma guarda para suster tais ataques, à espera que a tempestade passe. Nesta situação, o que nos apetecia fazer de verdade? Sair daquela posição? Dar meia volta e sair a correr? Provavelmente. Os principiantes fazem-no o tempo todo. Mas nós temos estado a desenvolver disciplina. Sabemos que sair a correr é instintivo, e que o adversário irá atrás de nós e continuará com seus ataques, no nosso corpo desprotegido.

 

O corpo não tem ‘vontade’ de o fazer, mas nós aguentamos ali, defendendo-nos. Então o que sucede?  Ele torna-se descuidado. Aproveitamos esta oportunidade e começamos o nosso ataque disciplinado. Talvez se trate de um encadeamento de técnicas de punhos, talvez uma chave à mão acabando com controlo no chão, talvez um estrangulamento  para lhe causar submissão, enfim o que preferirem, desde que a situação assim  o exija.

 

Agora podemos aplicar a  doutrina, génese e conceitos de Defesa Pessoal porque tivemos disciplina para manter a guarda, ser pacientes a agir quando tivemos percepção da oportunidade. Isso é exactamente o que devíamos fazer a cada dia da nossa vida.